Community Shield: o que é e por que existem as supercopas
O que é o Community Shield, quem disputa, o que acontece quando um clube faz a dobradinha e por que quase todo país tem sua supercopa de abertura.


Community Shield é o nome inglês de uma peça que existe, com regra própria, em pelo menos oito lugares do futebol mundial: a partida única entre o campeão da liga e o campeão da copa nacional da temporada anterior, disputada antes de a temporada seguinte valer pontos. Este guia apurou as oito peças, direto nas federações e ligas que as organizam: o Community Shield da Inglaterra, a Supercopa de España, a Supercoppa Italiana, o Trophée des Champions francês, o Supercup alemão, a Supercopa Rei brasileira, a Supercopa da UEFA e a Recopa Sul-Americana. Nenhuma delas é final de torneio, com fases anteriores, e é justamente por isso que a peça confunde quem procura os jogos que viriam antes dela e não encontra nenhum.
A lógica se repete em todo lugar: colocar frente a frente quem venceu a competição de pontos corridos da temporada anterior e quem venceu a principal copa eliminatória, e decidir num jogo só um campeão informal, sem grupo, sem tabela e sem classificação prévia. O peso esportivo é baixo perto de um título de liga. A disputa pela taça, no entanto, costuma ser levada a sério, com time titular em campo e vontade de vencer, e esse contraste entre pouca importância declarada e disputa séria é o fio que liga as oito competições apuradas a seguir.
Por dentro do Community Shield
O Community Shield nasceu em 1908 como FA Charity Shield, sucessor direto do Sheriff of London Shield, partida beneficente que já colocava frente a frente um clube profissional e um amador. Na estreia, o Manchester United, recém coroado campeão da Football League pela primeira vez em sua história, empatou em 1 a 1 com o Queens Park Rangers, campeão da Southern League, e venceu o replay por 4 a 0, os dois jogos disputados em Stamford Bridge. É o relato que a própria Football Association mantém no histórico oficial da competição.
O regulamento é simples: partida única, sem ida e volta, disputada em Wembley desde 1974, quando o então secretário da FA, Ted Croker, propôs fixar ali a abertura de temporada. A regra resistiu, mas não sem exceção: a peça já saiu de Wembley em 2012, para o Villa Park, em 2022, para o King Power Stadium, e na edição de 16 de agosto de 2026, para o Principality Stadium, em Cardiff, no País de Gales. Empate no tempo normal não joga prorrogação, vai direto para os pênaltis, disputa reintroduzida em 1993. Antes disso, entre 1949 e 1991, onze edições terminaram empatadas e ficaram com o troféu dividido, cada clube guardando a taça por meio ano.
O nome mudou em 2002, de FA Charity Shield para FA Community Shield. É a particularidade que nenhuma das outras sete supercopas carrega com o mesmo peso: enquanto o jogo teve Wembley como casa fixa, de 1974 a 2000, mais de cinco milhões de libras foram distribuídas a instituições beneficentes, segundo o próprio histórico publicado pela FA. Hoje a renda apoia projetos comunitários e entidades sem fins lucrativos do distrito de Brent, onde fica o estádio. Nenhuma outra das sete peças seguintes declara um destino beneficente no próprio nome.
A regra que mais confunde quem chega de fora é a da dobradinha. Quando o mesmo clube vence a Premier League e a Copa da Inglaterra na mesma temporada, não sobra um segundo finalista natural para a vaga da copa, e ela passa para o vice-campeão da liga. Foi o que decidiu o duelo de 6 de agosto de 2023: o Manchester City, campeão da Premier League e da Copa da Inglaterra de 2022/23, entrou como de costume, mas o adversário não foi outro clube qualquer, e sim o Arsenal, vice-campeão daquela Premier League, ocupando a vaga que a dobradinha do City deixou livre. Empate em 1 a 1 e vitória do Arsenal por 4 a 1 nos pênaltis, conforme o relato publicado pela própria Football Association.
O retrospecto do Community Shield mistura títulos isolados com os troféus divididos da era anterior ao pênalti obrigatório, e a Football Association mantém as duas contagens separadas. A tabela abaixo soma as duas colunas, com a apuração fechada na edição de 16 de agosto de 2026.
| Clube | Títulos isolados | Títulos divididos | Total até 16/08/2026 |
|---|---|---|---|
| Manchester United | 17 | 4 | 21 |
| Arsenal | 17 | 1 | 18 |
| Liverpool | 11 | 5 | 16 |
| Everton | 8 | 1 | 9 |
| Manchester City | 7 | 0 | 7 |
Sete parentes ao redor do mundo
O modelo inglês não é exclusivo. Espanha, Itália, França, Alemanha, Brasil, a UEFA e a CONMEBOL mantêm a própria versão da mesma ideia, cada uma com regra de formação, sede e desempate apurados direto na fonte, respectivamente RFEF, Lega Serie A, LFP, DFL, CBF, UEFA e CONMEBOL. A tabela abaixo é o cartão de identidade das oito peças, lado a lado.
| Competição | País ou escopo | Organizadora | Estreia | Formato de hoje | Quem disputa |
|---|---|---|---|---|---|
| Community Shield | Inglaterra | The Football Association | 1908 | Jogo único | Campeão da Premier League x campeão da Copa da Inglaterra |
| Supercopa de España | Espanha | RFEF | 1982 | Final Four desde 2020 | Campeão e vice da Liga, campeão e finalista da Copa del Rey |
| Supercoppa Italiana | Itália | Lega Serie A | 1988 | Final Four desde 2023/24 | Campeão e vice da Serie A, campeão e finalista da Coppa Italia |
| Trophée des Champions | França | LFP | 1995 | Jogo único | Campeão da Ligue 1 x campeão da Copa da França |
| Franz Beckenbauer Supercup | Alemanha | DFL | 1987 | Jogo único | Campeão da Bundesliga x campeão da DFB-Pokal |
| Supercopa Rei | Brasil | CBF | 1990 | Jogo único | Campeão do Brasileirão x campeão da Copa do Brasil |
| Supercopa da UEFA | Europa | UEFA | 1972, com aval da UEFA desde 1974 | Jogo único | Campeão da Champions League x campeão da Liga Europa |
| Recopa Sul-Americana | América do Sul | CONMEBOL | 1989, formato atual desde 2003 | Ida e volta | Campeão da Libertadores x campeão da Sul-Americana |
Antes de entrar competição por competição, vale isolar um detalhe de regra que atravessa as oito: o que acontece quando o placar empata no tempo normal. Inglaterra, França, Alemanha e Itália vão direto para os pênaltis, sem prorrogação nenhuma. Espanha também vai direto para os pênaltis, sem prorrogação nenhuma, desde que a RFEF eliminou a prorrogação da Supercopa a partir da edição de janeiro de 2025, e a Recopa Sul-Americana, que é a única disputada em dois jogos, continua prevendo prorrogação para o caso de igualdade no placar agregado, antes de ir para os pênaltis.
A Supercopa de España nasceu em julho de 1982, quando a assembleia geral da RFEF aprovou a proposta de criar uma partida entre o campeão da Liga e o campeão da Copa del Rey. O impulso partiu de José Luís Núñez, então presidente do FC Barcelona, e a primeira edição, na temporada 1982/83, colocou frente a frente a Real Sociedad, campeã da Liga, e o Real Madrid, campeão da Copa, com vitória e primeiro título justamente da Real Sociedad. Até 1994 a disputa acontecia no meio da temporada, mudança que a própria RFEF fez para resolver a dificuldade de achar data livre na agenda.
O formato mudou de vez em 29 de abril de 2019, quando a Assembleia Extraordinária da RFEF aprovou o modelo de quatro equipes, batizado de Final Four e disputado pela primeira vez em janeiro de 2020. Os quatro classificados são os dois finalistas da Copa del Rey mais o campeão e o vice-campeão da Liga, e a própria RFEF já previu a superposição: quando um clube ocupa mais de uma vaga ao mesmo tempo, entra em seu lugar o melhor colocado da Liga que não tenha disputado a final da Copa. Desde a criação do novo formato, a competição é disputada na Arábia Saudita. Na edição de 11 de janeiro de 2026, no King Abdullah Sports City, em Jidá, o Barcelona bateu o Real Madrid por 3 a 2 e conquistou o décimo sexto título do clube, o segundo seguido. O Real Madrid somava treze.
A Supercoppa Italiana seguiu um caminho parecido, com um detalhe curioso na origem: a primeira edição, batizada de 1988 por ter reunido os campeões da temporada 1987/88, só foi disputada em 14 de junho de 1989, no San Siro, porque a data original de agosto de 1988 esbarrou nos Jogos Olímpicos de Seul. O Milan bateu a Sampdoria por 3 a 1 e abriu o próprio retrospecto. Desde a temporada 2023/24 a competição também virou Final Four, com campeão e vice-campeão do Scudetto somados ao campeão e ao finalista da Coppa Italia, e uma regra de substituição em cascata para as superposições: primeiro entra o terceiro colocado da Serie A, se ainda faltar vaga, o quarto colocado. Na edição encerrada em 22 de dezembro de 2025, em Riade, o Napoli bateu o Bologna por 2 a 0 e chegou ao terceiro título da própria história. A Juventus liderava o retrospecto com nove, contra oito da Inter.
Espanha e Itália mudaram de formato pela mesma razão declarada: dinheiro. As duas federações assinaram contratos plurianuais para realizar a Final Four na Arábia Saudita, com a Supercopa de España na Cidade Esportiva Rei Abdullah e a Supercoppa Italiana majoritariamente em Riade, e o modelo de quatro equipes multiplicou por três o número de jogos vendidos a cada edição, de uma partida para três.
O Trophée des Champions que existe hoje nasceu na temporada 1995/96, quando a Ligue de Football Professionnel assumiu a organização de uma partida entre o campeão da Ligue 1 e o vencedor da Copa da França, com o primeiro jogo em janeiro de 1996, entre Paris Saint-Germain e Nantes, no Stade Francis-Le Blé, em Brest. Existe um antecedente de nome parecido, o Challenge des Champions, organizado pela Federação Francesa de Futebol entre 1955 e 1973 e revivido brevemente em 1985 e 1986, mas as três competições costumam ser tratadas como distintas, sem continuidade de retrospecto entre uma e outra. Desde 2009 a partida passou a ser disputada, na maioria das edições, fora do território francês, decisão que a LFP declara como forma de promover o futebol francês no exterior.
O próprio regulamento da LFP, no artigo 801, guarda uma curiosidade de protocolo: mesmo quando o jogo acontece fora da França, o clube campeão da Ligue 1 segue sendo tratado como mandante, e o vencedor da Copa da França, como visitante. O mesmo artigo prevê o cenário da dobradinha: se o campeão da Ligue 1 também vence a Copa da França, a vaga do vencedor da copa passa ao vice-campeão da Ligue 1, regra que vale ainda se o campeão da copa não tiver estatuto profissional ou tiver compromisso europeu que atrapalhe a data. Foi o que aconteceu depois da temporada 2019/20: o Paris Saint-Germain fez a dobradinha, e no Trophée des Champions seguinte, disputado em 13 de janeiro de 2021, o adversário do PSG não foi o vencedor de copa nenhum, e sim o Olympique de Marselha, vice-campeão daquela Ligue 1, ocupando a vaga que a dobradinha tinha deixado livre. O PSG venceu por 2 a 1. Em 8 de janeiro de 2026, no Jaber Al-Ahmad International Stadium, na Cidade do Kuwait, o Paris Saint-Germain bateu o Olympique de Marselha por 2 a 2, com 4 a 1 nos pênaltis, e chegou ao décimo quarto título, recorde da competição. Na edição de 16 de agosto de 2026, no Stade Bollaert-Delelis, o próprio time da casa, o RC Lens, venceu o PSG por 1 a 0 e conquistou o primeiro Trophée des Champions do clube.
O Supercup alemão nasceu em 1987 como DFB-Supercup, com a primeira partida em 28 de julho daquele ano, vitória do Bayern de Munique sobre o Hamburgo por 2 a 1. A disputa parou depois da edição de 1996, substituída na prática pela Ligapokal, torneio diferente que rodou até 2007, e só voltou em 2010, pela mão da DFL, depois de catorze anos de hiato, com a primeira partida do retorno em campo neutro, em Augsburgo. Desde a temporada 2025/26 a competição tem um nome novo, Franz Beckenbauer Supercup, homenagem ao ídolo morto em janeiro de 2024.
O mecanismo alemão da dobradinha seguiu o mesmo caminho do inglês e do francês: se o mesmo clube vence Bundesliga e DFB-Pokal, o vice-campeão da Bundesliga assume a vaga da copa. Foi exatamente o caso da edição de 22 de agosto de 2026, no Signal Iduna Park, em Dortmund: o Bayern de Munique tinha feito a dobradinha de 2025/26, goleando o próprio Stuttgart por 3 a 0 na final da DFB-Pokal, e o adversário do Supercup foi o Borussia Dortmund, vice-campeão daquela Bundesliga. O Bayern venceu por 2 a 1, gols de Nathaniel Brown e Michael Olise, e chegou ao décimo segundo título da própria história, recorde isolado da competição.
Entre as oito, a Supercopa Rei brasileira tem a origem mais movimentada. A primeira edição saiu em 1990, com o Grêmio batendo o Vasco por 2 a 0, em Porto Alegre, e a segunda em 1991, com o Corinthians vencendo o Flamengo por 1 a 0, no Morumbi. A disputa parou depois disso, e o troféu do título de 1990 só chegou fisicamente às mãos do Grêmio em 29 de outubro de 2025, trinta e cinco anos depois, num gesto que a própria CBF chamou de reparação histórica: a entrega tinha travado, em 1990, por uma disputa entre emissoras pelos direitos de transmissão da cerimônia.
A CBF recriou a competição em 2020, entre o campeão do Brasileirão e o campeão da Copa do Brasil da temporada anterior, sempre em sede neutra. Em 31 de janeiro de 2024, a entidade anunciou a mudança de nome para Supercopa Rei, em homenagem a Pelé, morto em dezembro de 2022, com a primeira partida sob o novo nome no dia 4 de fevereiro daquele ano. Na edição de 1º de fevereiro de 2026, no Mané Garrincha, em Brasília, o Corinthians bateu o Flamengo por 2 a 0 e chegou ao segundo título da própria história, contando a edição de 1991. O Flamengo seguiu como maior campeão, com três taças, conquistadas em 2020, 2021 e 2025.
No Brasil, a regra da dobradinha já foi testada uma vez, e o exemplo mostra o mecanismo com clareza: o Atlético Mineiro venceu o Brasileirão e a Copa do Brasil de 2021, dobradinha que abriu a vaga da Supercopa de 2022 para o Flamengo, vice-campeão daquele Brasileirão. O Atlético-MG venceu nos pênaltis, depois de 2 a 2 no tempo normal, e ergueu o troféu diante do próprio clube que tinha ficado a um resultado de disputar a partida como campeão.
Restam as duas versões continentais, e as duas fogem à régua doméstica das outras seis. A Supercopa da UEFA nasceu em 1972 como disputa não oficial e ganhou aval da própria entidade em janeiro de 1974, opondo então o campeão da Copa dos Campeões ao campeão da extinta Recopa Europeia. Hoje cruza o campeão da Champions League com o campeão da Liga Europa, em jogo único, sem sede fixa desde que Mônaco deixou de sediar todas as edições em 2012. A Recopa Sul-Americana estreou em 1989, com regulamento diferente do atual, e ganhou o formato de hoje em 2003, cruzando o campeão da Libertadores com o campeão da Sul-Americana em dois jogos, o único disputado hoje em ida e volta entre as oito peças deste texto.
Quem joga quando o campeão faz a dobradinha
A pergunta que mais aparece nos comentários de quem só conhece uma supercopa é sempre a mesma: e se o mesmo time ganhar os dois títulos? A resposta muda conforme o formato de cada competição, e vale separar quem sequer enfrenta o problema de quem precisa de uma regra escrita para resolvê-lo.
Nem a Supercopa da UEFA nem a Recopa Sul-Americana têm essa regra, porque não podem ter: um clube não disputa a Liga Europa no mesmo ano em que é campeão da Champions League, e um clube não é campeão da Libertadores e da Sul-Americana na mesma temporada, já que uma eliminação na primeira não reclassifica o time para a segunda. A dobradinha, nessas duas, é matematicamente impossível.
Inglaterra, França, Alemanha e Brasil resolvem a superposição da mesma forma: o vice-campeão da liga entra na vaga que a dobradinha do campeão deixou livre, e o campeão da liga segue jogando normalmente. Os exemplos já apurados linha acima mostram o padrão: o Arsenal de 2023, o Olympique de Marselha de 2021, o Flamengo de 2022 e o Borussia Dortmund de 2026.
Por terem quatro vagas e não duas, Espanha e Itália escreveram uma regra mais longa para a dobradinha. A RFEF prevê que, em caso de superposição, entra o melhor colocado da Liga que não tenha disputado a final da Copa del Rey. A Lega Serie A vai além e escreve uma ordem inteira de substituição, sempre descendo pela tabela do Scudetto: campeã da Serie A, campeã da Coppa Italia, vice-campeã da Serie A, finalista da Coppa Italia, terceira colocada da Serie A e, se ainda faltar vaga, a quarta colocada.
A tabela a seguir resume a regra e, onde o caso já tinha acontecido, o exemplo real mais recente até a conferência deste texto, em setembro de 2026, com data.
| Competição | Existe o problema? | Regra em caso de dobradinha | Exemplo mais recente até a conferência deste texto (setembro de 2026) |
|---|---|---|---|
| Community Shield | Sim | Vice-campeão da Premier League assume a vaga da copa | Arsenal em 06/08/2023, dobradinha do Manchester City em 2022/23 |
| Supercopa de España | Sim | Melhor colocado da Liga fora da final da Copa del Rey | Não tinha acontecido desde a criação da Final Four, em 2020 |
| Supercoppa Italiana | Sim | Ordem em cascata, descendo pela tabela da Serie A | Não tinha acontecido desde a criação da Final Four, em 2023/24 |
| Trophée des Champions | Sim | Vice-campeão da Ligue 1 assume a vaga da copa | Olympique de Marselha em 13/01/2021, dobradinha do PSG em 2019/20 |
| Franz Beckenbauer Supercup | Sim | Vice-campeão da Bundesliga assume a vaga da copa | Borussia Dortmund em 22/08/2026, dobradinha do Bayern em 2025/26 |
| Supercopa Rei | Sim | Vice-campeão do Brasileirão assume a vaga da copa | Flamengo em 2022, dobradinha do Atlético-MG em 2021 |
| Supercopa da UEFA | Não, impossível pela estrutura | - | - |
| Recopa Sul-Americana | Não, impossível pela estrutura | - | - |
Onde se joga, e por que o mapa mudou
Quatro das oito peças resistem a sair de casa. O Community Shield, apesar das três exceções já registradas, segue como jogo doméstico inglês. O Franz Beckenbauer Supercup sempre acontece na Alemanha, no estádio do clube mandante daquela edição, alternando entre os dois times. A Supercopa Rei sempre acontece em sede neutra dentro do próprio Brasil, com o Mané Garrincha, em Brasília, como palco mais recorrente. E a Recopa Sul-Americana, por ser jogada em dois jogos, sempre acontece nos estádios dos dois clubes envolvidos, um de cada vez.
As outras quatro viajam, por motivos diferentes. Espanha e Itália levaram a própria Final Four para a Arábia Saudita, por contrato comercial. A França decidiu, em 2009, levar o Trophée des Champions para fora do próprio território como estratégia de promoção internacional do futebol francês, e desde então já jogou em cidades da América do Norte, da África e do Golfo Pérsico, caso da edição de janeiro de 2026, na Cidade do Kuwait. A regra não é absoluta: a edição seguinte, em agosto de 2026, voltou para a França, sede definida por sorteio entre os clubes envolvidos e disputada no próprio estádio do RC Lens, prova de que a decisão de exportar o jogo se renova, ou não, a cada ano. A Supercopa da UEFA não tem intenção comercial de exportação: o regulamento da própria competição manda o jogo circular por uma cidade europeia diferente a cada ano, como parte do calendário europeu de sedes, sem fixar residência em lugar nenhum desde que Mônaco deixou de sediar todas as edições, em 2012.
A tabela seguinte junta as oito peças por padrão de sede, com a data em que o padrão atual começou a valer.
| Competição | Onde se joga hoje | Desde quando | Motivo declarado |
|---|---|---|---|
| Community Shield | Wembley, com exceções pontuais | 1974, com exceções em 2012, 2022 e 2026 | Tradição doméstica inglesa |
| Supercopa de España | Arábia Saudita | 2020 | Contrato comercial da RFEF |
| Supercoppa Italiana | Arábia Saudita, majoritariamente Riade | 2023/24 | Contrato comercial da Lega Serie A |
| Trophée des Champions | Fora da França na maioria das edições, sede variável por sorteio | 2009 | Promoção internacional do futebol francês |
| Franz Beckenbauer Supercup | Alemanha, alternando mandante | 2010 | Tradição doméstica alemã |
| Supercopa Rei | Sede neutra dentro do Brasil | 2020 | Decisão da CBF ao recriar a competição |
| Supercopa da UEFA | Cidade europeia diferente a cada ano | 2012 | Calendário rotativo da UEFA |
| Recopa Sul-Americana | Estádios dos dois clubes finalistas | 2003 | Formato de ida e volta |
Conta como título oficial?
É a discussão mais antiga em torno de qualquer supercopa, e nenhuma federação das oito resolveu de vez: o título vale o mesmo que um campeonato de pontos corridos ou que uma copa longa, ou é um troféu de categoria diferente?
A própria Inglaterra convive com a contradição sem escondê-la. O Community Shield fica de fora, por convenção da imprensa e do próprio meio do futebol inglês, de qualquer conta de dobradinha ou tríplice coroa, tratado como confronto de abertura de temporada, não como troféu maior. Ainda assim, a Football Association mantém um retrospecto oficial completo, por clube, desde 1908, o mesmo tipo de registro reservado às competições que ninguém questiona.
O Brasil oferece o retrato mais nítido dessa ambiguidade. Uma federação que levou trinta e cinco anos para entregar fisicamente um troféu já reconhecido é uma federação que, na prática, hesitou sobre o próprio peso daquele título. E quando a imprensa noticiou o título do Corinthians em 2026 como o segundo da história do clube na competição, contando a edição isolada de 1991, ficou claro que o critério em uso funde as duas eras, a antiga e a atual, num retrospecto só, apesar do hiato de vinte e nove anos entre elas.
A tabela a seguir fecha a comparação com o maior campeão de cada uma das oito peças, todas com a apuração datada.
| Competição | Maior campeão | Títulos | Apurado até |
|---|---|---|---|
| Community Shield | Manchester United | 21 | 16/08/2026 |
| Supercopa de España | Barcelona | 16 | 11/01/2026 |
| Supercoppa Italiana | Juventus | 9 | 22/12/2025 |
| Trophée des Champions | Paris Saint-Germain | 14 | 16/08/2026 |
| Franz Beckenbauer Supercup | Bayern de Munique | 12 | 22/08/2026 |
| Supercopa Rei | Flamengo | 3 | 01/02/2026 |
| Supercopa da UEFA | Real Madrid | 6 | 12/08/2026 |
| Recopa Sul-Americana | Boca Juniors | 4 | 26/02/2026 |
O que esta comparação não resolve
Duas lacunas ficaram de fora por falta de lastro, e é melhor nomeá-las do que preencher com estimativa. A primeira é o valor exato pago a cada clube pela disputa da Supercopa de España e da Supercoppa Italiana na Arábia Saudita: os contratos comerciais entre as federações e os anfitriões sauditas não são públicos, diferente da tabela de premiação que a CONMEBOL publica, por exemplo, para as próprias competições continentais. A segunda é a sede da Supercoppa Italiana de 2027, que a Lega Serie A ainda não tinha anunciado quando esta apuração foi fechada, em 21 de setembro de 2026.
O que sustenta esta comparação é mais estreito e mais firme do que qualquer um desses dois pontos em aberto. As oito supercopas nasceram da mesma ideia, um jogo só entre dois campeões da temporada anterior, e nenhuma federação abriu mão da própria versão dela, mesmo depois de décadas de debate sobre o peso real do troféu. Duas mudaram de continente para disputar a peça por dinheiro. Quatro criaram uma regra para a dobradinha porque precisavam. Duas nunca vão precisar, porque a própria estrutura do calendário torna o problema impossível. E todas, sem exceção, seguem sendo disputadas para valer, com time titular em campo, o que nenhuma das oito trata como amistoso.
Supercopa deve contar como título na galeria do clube?
Correção (21/09): o texto dizia que a edição de 16/08/2026 foi no "Millennium Stadium", em Cardiff; o nome atual do estádio, desde 2016, é Principality Stadium. Dizia também que a Recopa Sul-Americana era "o único par de jogos entre as oito peças deste texto"; a Supercopa de España (1982 a 2017) e a primeira Supercopa do Brasil (1990) também foram disputadas em ida e volta, por isso o trecho agora diz "o único disputado hoje em ida e volta". Dizia que a Espanha jogava "trinta minutos de prorrogação, divididos em dois tempos de quinze"; a RFEF eliminou a prorrogação da Supercopa de España a partir da edição de janeiro de 2025, que desde então vai direto aos pênaltis, como as outras quatro de jogo único. E dizia que o nome mudou em 2002 "acompanhando o destino do dinheiro arrecadado"; essa causa não tinha fonte no pacote original e foi retirada sem substituição.
Algumas frases prendiam o guia ao dia da apuração e perderiam a validade com o tempo; agora citam a data de cada edição. "Na edição mais recente" (Supercopa de España, Trophée des Champions e Supercopa Rei) passou a nomear a edição pela data do jogo, e "A edição mais recente terminou em 22 de dezembro de 2025" (Supercoppa Italiana) virou "Na edição encerrada em 22 de dezembro de 2025"; as contagens que vinham junto passaram ao passado, em relação àquela edição: "O Real Madrid somava treze", "A Juventus liderava o retrospecto" e "O Flamengo seguiu como maior campeão". A tabela dos exemplos de dobradinha e a frase que a apresenta passaram a datar o exemplo mais recente pela conferência deste texto, em setembro de 2026, e as células "Não aconteceu desde a criação da Final Four" viraram "Não tinha acontecido". Nenhum fato mudou.
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- Wikipedia: 1990 Supercopa do Brasil (abre em nova aba)
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Perguntas frequentes
- O que é o Community Shield?
- É a supercopa do futebol inglês, uma partida única disputada antes do início da temporada entre o campeão da Premier League e o campeão da Copa da Inglaterra. É organizada pela federação inglesa e a renda vai para causas beneficentes e comunitárias.
- Quem joga se o mesmo clube ganha a liga e a copa?
- Quando um clube faz a dobradinha, não sobra um segundo campeão, então a vaga passa para o vice-campeão da Premier League. A decisão vira, assim, uma revanche entre os dois melhores da liga.
- O Community Shield tem prorrogação?
- Não. Se o empate persistir no fim do tempo normal, a partida vai direto para os pênaltis. Em épocas anteriores, o empate levava os dois clubes a dividir o troféu.
- O Community Shield é a Supercopa da Inglaterra?
- É o mesmo torneio. O Community Shield é a supercopa do futebol inglês: uma partida única, disputada antes do início da temporada, entre o campeão da Premier League e o campeão da Copa da Inglaterra.





