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Community Shield: o que é e por que existem as supercopas

O que é o Community Shield, quem disputa, o que acontece quando um clube faz a dobradinha e por que quase todo país tem sua supercopa de abertura.

Lucas G. de Moraes
Por Lucas G. de Moraes

18 de agosto de 2026 às 09:08

· 21 min de leitura

Produzido pela nossa redação de IA e revisado por um editor antes de publicar. Política editorial

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Community Shield: o que é e por que existem as supercopas
Imagem gerada por IA · Soccer Addicted

Community Shield é o nome inglês de uma peça que existe, com regra própria, em pelo menos oito lugares do futebol mundial: a partida única entre o campeão da liga e o campeão da copa nacional da temporada anterior, disputada antes de a temporada seguinte valer pontos. Este guia apurou as oito peças, direto nas federações e ligas que as organizam: o Community Shield da Inglaterra, a Supercopa de España, a Supercoppa Italiana, o Trophée des Champions francês, o Supercup alemão, a Supercopa Rei brasileira, a Supercopa da UEFA e a Recopa Sul-Americana. Nenhuma delas é final de torneio, com fases anteriores, e é justamente por isso que a peça confunde quem procura os jogos que viriam antes dela e não encontra nenhum.

A lógica se repete em todo lugar: colocar frente a frente quem venceu a competição de pontos corridos da temporada anterior e quem venceu a principal copa eliminatória, e decidir num jogo só um campeão informal, sem grupo, sem tabela e sem classificação prévia. O peso esportivo é baixo perto de um título de liga. A disputa pela taça, no entanto, costuma ser levada a sério, com time titular em campo e vontade de vencer, e esse contraste entre pouca importância declarada e disputa séria é o fio que liga as oito competições apuradas a seguir.

Por dentro do Community Shield

O Community Shield nasceu em 1908 como FA Charity Shield, sucessor direto do Sheriff of London Shield, partida beneficente que já colocava frente a frente um clube profissional e um amador. Na estreia, o Manchester United, recém coroado campeão da Football League pela primeira vez em sua história, empatou em 1 a 1 com o Queens Park Rangers, campeão da Southern League, e venceu o replay por 4 a 0, os dois jogos disputados em Stamford Bridge. É o relato que a própria Football Association mantém no histórico oficial da competição.

O regulamento é simples: partida única, sem ida e volta, disputada em Wembley desde 1974, quando o então secretário da FA, Ted Croker, propôs fixar ali a abertura de temporada. A regra resistiu, mas não sem exceção: a peça já saiu de Wembley em 2012, para o Villa Park, em 2022, para o King Power Stadium, e na edição de 16 de agosto de 2026, para o Principality Stadium, em Cardiff, no País de Gales. Empate no tempo normal não joga prorrogação, vai direto para os pênaltis, disputa reintroduzida em 1993. Antes disso, entre 1949 e 1991, onze edições terminaram empatadas e ficaram com o troféu dividido, cada clube guardando a taça por meio ano.

O nome mudou em 2002, de FA Charity Shield para FA Community Shield. É a particularidade que nenhuma das outras sete supercopas carrega com o mesmo peso: enquanto o jogo teve Wembley como casa fixa, de 1974 a 2000, mais de cinco milhões de libras foram distribuídas a instituições beneficentes, segundo o próprio histórico publicado pela FA. Hoje a renda apoia projetos comunitários e entidades sem fins lucrativos do distrito de Brent, onde fica o estádio. Nenhuma outra das sete peças seguintes declara um destino beneficente no próprio nome.

A regra que mais confunde quem chega de fora é a da dobradinha. Quando o mesmo clube vence a Premier League e a Copa da Inglaterra na mesma temporada, não sobra um segundo finalista natural para a vaga da copa, e ela passa para o vice-campeão da liga. Foi o que decidiu o duelo de 6 de agosto de 2023: o Manchester City, campeão da Premier League e da Copa da Inglaterra de 2022/23, entrou como de costume, mas o adversário não foi outro clube qualquer, e sim o Arsenal, vice-campeão daquela Premier League, ocupando a vaga que a dobradinha do City deixou livre. Empate em 1 a 1 e vitória do Arsenal por 4 a 1 nos pênaltis, conforme o relato publicado pela própria Football Association.

O retrospecto do Community Shield mistura títulos isolados com os troféus divididos da era anterior ao pênalti obrigatório, e a Football Association mantém as duas contagens separadas. A tabela abaixo soma as duas colunas, com a apuração fechada na edição de 16 de agosto de 2026.

Por dentro do Community Shield
ClubeTítulos isoladosTítulos divididosTotal até 16/08/2026
Manchester United17421
Arsenal17118
Liverpool11516
Everton819
Manchester City707

Sete parentes ao redor do mundo

O modelo inglês não é exclusivo. Espanha, Itália, França, Alemanha, Brasil, a UEFA e a CONMEBOL mantêm a própria versão da mesma ideia, cada uma com regra de formação, sede e desempate apurados direto na fonte, respectivamente RFEF, Lega Serie A, LFP, DFL, CBF, UEFA e CONMEBOL. A tabela abaixo é o cartão de identidade das oito peças, lado a lado.

Sete parentes ao redor do mundo
CompetiçãoPaís ou escopoOrganizadoraEstreiaFormato de hojeQuem disputa
Community ShieldInglaterraThe Football Association1908Jogo únicoCampeão da Premier League x campeão da Copa da Inglaterra
Supercopa de EspañaEspanhaRFEF1982Final Four desde 2020Campeão e vice da Liga, campeão e finalista da Copa del Rey
Supercoppa ItalianaItáliaLega Serie A1988Final Four desde 2023/24Campeão e vice da Serie A, campeão e finalista da Coppa Italia
Trophée des ChampionsFrançaLFP1995Jogo únicoCampeão da Ligue 1 x campeão da Copa da França
Franz Beckenbauer SupercupAlemanhaDFL1987Jogo únicoCampeão da Bundesliga x campeão da DFB-Pokal
Supercopa ReiBrasilCBF1990Jogo únicoCampeão do Brasileirão x campeão da Copa do Brasil
Supercopa da UEFAEuropaUEFA1972, com aval da UEFA desde 1974Jogo únicoCampeão da Champions League x campeão da Liga Europa
Recopa Sul-AmericanaAmérica do SulCONMEBOL1989, formato atual desde 2003Ida e voltaCampeão da Libertadores x campeão da Sul-Americana

Antes de entrar competição por competição, vale isolar um detalhe de regra que atravessa as oito: o que acontece quando o placar empata no tempo normal. Inglaterra, França, Alemanha e Itália vão direto para os pênaltis, sem prorrogação nenhuma. Espanha também vai direto para os pênaltis, sem prorrogação nenhuma, desde que a RFEF eliminou a prorrogação da Supercopa a partir da edição de janeiro de 2025, e a Recopa Sul-Americana, que é a única disputada em dois jogos, continua prevendo prorrogação para o caso de igualdade no placar agregado, antes de ir para os pênaltis.

A Supercopa de España nasceu em julho de 1982, quando a assembleia geral da RFEF aprovou a proposta de criar uma partida entre o campeão da Liga e o campeão da Copa del Rey. O impulso partiu de José Luís Núñez, então presidente do FC Barcelona, e a primeira edição, na temporada 1982/83, colocou frente a frente a Real Sociedad, campeã da Liga, e o Real Madrid, campeão da Copa, com vitória e primeiro título justamente da Real Sociedad. Até 1994 a disputa acontecia no meio da temporada, mudança que a própria RFEF fez para resolver a dificuldade de achar data livre na agenda.

O formato mudou de vez em 29 de abril de 2019, quando a Assembleia Extraordinária da RFEF aprovou o modelo de quatro equipes, batizado de Final Four e disputado pela primeira vez em janeiro de 2020. Os quatro classificados são os dois finalistas da Copa del Rey mais o campeão e o vice-campeão da Liga, e a própria RFEF já previu a superposição: quando um clube ocupa mais de uma vaga ao mesmo tempo, entra em seu lugar o melhor colocado da Liga que não tenha disputado a final da Copa. Desde a criação do novo formato, a competição é disputada na Arábia Saudita. Na edição de 11 de janeiro de 2026, no King Abdullah Sports City, em Jidá, o Barcelona bateu o Real Madrid por 3 a 2 e conquistou o décimo sexto título do clube, o segundo seguido. O Real Madrid somava treze.

A Supercoppa Italiana seguiu um caminho parecido, com um detalhe curioso na origem: a primeira edição, batizada de 1988 por ter reunido os campeões da temporada 1987/88, só foi disputada em 14 de junho de 1989, no San Siro, porque a data original de agosto de 1988 esbarrou nos Jogos Olímpicos de Seul. O Milan bateu a Sampdoria por 3 a 1 e abriu o próprio retrospecto. Desde a temporada 2023/24 a competição também virou Final Four, com campeão e vice-campeão do Scudetto somados ao campeão e ao finalista da Coppa Italia, e uma regra de substituição em cascata para as superposições: primeiro entra o terceiro colocado da Serie A, se ainda faltar vaga, o quarto colocado. Na edição encerrada em 22 de dezembro de 2025, em Riade, o Napoli bateu o Bologna por 2 a 0 e chegou ao terceiro título da própria história. A Juventus liderava o retrospecto com nove, contra oito da Inter.

Espanha e Itália mudaram de formato pela mesma razão declarada: dinheiro. As duas federações assinaram contratos plurianuais para realizar a Final Four na Arábia Saudita, com a Supercopa de España na Cidade Esportiva Rei Abdullah e a Supercoppa Italiana majoritariamente em Riade, e o modelo de quatro equipes multiplicou por três o número de jogos vendidos a cada edição, de uma partida para três.

O Trophée des Champions que existe hoje nasceu na temporada 1995/96, quando a Ligue de Football Professionnel assumiu a organização de uma partida entre o campeão da Ligue 1 e o vencedor da Copa da França, com o primeiro jogo em janeiro de 1996, entre Paris Saint-Germain e Nantes, no Stade Francis-Le Blé, em Brest. Existe um antecedente de nome parecido, o Challenge des Champions, organizado pela Federação Francesa de Futebol entre 1955 e 1973 e revivido brevemente em 1985 e 1986, mas as três competições costumam ser tratadas como distintas, sem continuidade de retrospecto entre uma e outra. Desde 2009 a partida passou a ser disputada, na maioria das edições, fora do território francês, decisão que a LFP declara como forma de promover o futebol francês no exterior.

O próprio regulamento da LFP, no artigo 801, guarda uma curiosidade de protocolo: mesmo quando o jogo acontece fora da França, o clube campeão da Ligue 1 segue sendo tratado como mandante, e o vencedor da Copa da França, como visitante. O mesmo artigo prevê o cenário da dobradinha: se o campeão da Ligue 1 também vence a Copa da França, a vaga do vencedor da copa passa ao vice-campeão da Ligue 1, regra que vale ainda se o campeão da copa não tiver estatuto profissional ou tiver compromisso europeu que atrapalhe a data. Foi o que aconteceu depois da temporada 2019/20: o Paris Saint-Germain fez a dobradinha, e no Trophée des Champions seguinte, disputado em 13 de janeiro de 2021, o adversário do PSG não foi o vencedor de copa nenhum, e sim o Olympique de Marselha, vice-campeão daquela Ligue 1, ocupando a vaga que a dobradinha tinha deixado livre. O PSG venceu por 2 a 1. Em 8 de janeiro de 2026, no Jaber Al-Ahmad International Stadium, na Cidade do Kuwait, o Paris Saint-Germain bateu o Olympique de Marselha por 2 a 2, com 4 a 1 nos pênaltis, e chegou ao décimo quarto título, recorde da competição. Na edição de 16 de agosto de 2026, no Stade Bollaert-Delelis, o próprio time da casa, o RC Lens, venceu o PSG por 1 a 0 e conquistou o primeiro Trophée des Champions do clube.

O Supercup alemão nasceu em 1987 como DFB-Supercup, com a primeira partida em 28 de julho daquele ano, vitória do Bayern de Munique sobre o Hamburgo por 2 a 1. A disputa parou depois da edição de 1996, substituída na prática pela Ligapokal, torneio diferente que rodou até 2007, e só voltou em 2010, pela mão da DFL, depois de catorze anos de hiato, com a primeira partida do retorno em campo neutro, em Augsburgo. Desde a temporada 2025/26 a competição tem um nome novo, Franz Beckenbauer Supercup, homenagem ao ídolo morto em janeiro de 2024.

O mecanismo alemão da dobradinha seguiu o mesmo caminho do inglês e do francês: se o mesmo clube vence Bundesliga e DFB-Pokal, o vice-campeão da Bundesliga assume a vaga da copa. Foi exatamente o caso da edição de 22 de agosto de 2026, no Signal Iduna Park, em Dortmund: o Bayern de Munique tinha feito a dobradinha de 2025/26, goleando o próprio Stuttgart por 3 a 0 na final da DFB-Pokal, e o adversário do Supercup foi o Borussia Dortmund, vice-campeão daquela Bundesliga. O Bayern venceu por 2 a 1, gols de Nathaniel Brown e Michael Olise, e chegou ao décimo segundo título da própria história, recorde isolado da competição.

Entre as oito, a Supercopa Rei brasileira tem a origem mais movimentada. A primeira edição saiu em 1990, com o Grêmio batendo o Vasco por 2 a 0, em Porto Alegre, e a segunda em 1991, com o Corinthians vencendo o Flamengo por 1 a 0, no Morumbi. A disputa parou depois disso, e o troféu do título de 1990 só chegou fisicamente às mãos do Grêmio em 29 de outubro de 2025, trinta e cinco anos depois, num gesto que a própria CBF chamou de reparação histórica: a entrega tinha travado, em 1990, por uma disputa entre emissoras pelos direitos de transmissão da cerimônia.

A CBF recriou a competição em 2020, entre o campeão do Brasileirão e o campeão da Copa do Brasil da temporada anterior, sempre em sede neutra. Em 31 de janeiro de 2024, a entidade anunciou a mudança de nome para Supercopa Rei, em homenagem a Pelé, morto em dezembro de 2022, com a primeira partida sob o novo nome no dia 4 de fevereiro daquele ano. Na edição de 1º de fevereiro de 2026, no Mané Garrincha, em Brasília, o Corinthians bateu o Flamengo por 2 a 0 e chegou ao segundo título da própria história, contando a edição de 1991. O Flamengo seguiu como maior campeão, com três taças, conquistadas em 2020, 2021 e 2025.

No Brasil, a regra da dobradinha já foi testada uma vez, e o exemplo mostra o mecanismo com clareza: o Atlético Mineiro venceu o Brasileirão e a Copa do Brasil de 2021, dobradinha que abriu a vaga da Supercopa de 2022 para o Flamengo, vice-campeão daquele Brasileirão. O Atlético-MG venceu nos pênaltis, depois de 2 a 2 no tempo normal, e ergueu o troféu diante do próprio clube que tinha ficado a um resultado de disputar a partida como campeão.

Restam as duas versões continentais, e as duas fogem à régua doméstica das outras seis. A Supercopa da UEFA nasceu em 1972 como disputa não oficial e ganhou aval da própria entidade em janeiro de 1974, opondo então o campeão da Copa dos Campeões ao campeão da extinta Recopa Europeia. Hoje cruza o campeão da Champions League com o campeão da Liga Europa, em jogo único, sem sede fixa desde que Mônaco deixou de sediar todas as edições em 2012. A Recopa Sul-Americana estreou em 1989, com regulamento diferente do atual, e ganhou o formato de hoje em 2003, cruzando o campeão da Libertadores com o campeão da Sul-Americana em dois jogos, o único disputado hoje em ida e volta entre as oito peças deste texto.

Quem joga quando o campeão faz a dobradinha

A pergunta que mais aparece nos comentários de quem só conhece uma supercopa é sempre a mesma: e se o mesmo time ganhar os dois títulos? A resposta muda conforme o formato de cada competição, e vale separar quem sequer enfrenta o problema de quem precisa de uma regra escrita para resolvê-lo.

Nem a Supercopa da UEFA nem a Recopa Sul-Americana têm essa regra, porque não podem ter: um clube não disputa a Liga Europa no mesmo ano em que é campeão da Champions League, e um clube não é campeão da Libertadores e da Sul-Americana na mesma temporada, já que uma eliminação na primeira não reclassifica o time para a segunda. A dobradinha, nessas duas, é matematicamente impossível.

Inglaterra, França, Alemanha e Brasil resolvem a superposição da mesma forma: o vice-campeão da liga entra na vaga que a dobradinha do campeão deixou livre, e o campeão da liga segue jogando normalmente. Os exemplos já apurados linha acima mostram o padrão: o Arsenal de 2023, o Olympique de Marselha de 2021, o Flamengo de 2022 e o Borussia Dortmund de 2026.

Por terem quatro vagas e não duas, Espanha e Itália escreveram uma regra mais longa para a dobradinha. A RFEF prevê que, em caso de superposição, entra o melhor colocado da Liga que não tenha disputado a final da Copa del Rey. A Lega Serie A vai além e escreve uma ordem inteira de substituição, sempre descendo pela tabela do Scudetto: campeã da Serie A, campeã da Coppa Italia, vice-campeã da Serie A, finalista da Coppa Italia, terceira colocada da Serie A e, se ainda faltar vaga, a quarta colocada.

A tabela a seguir resume a regra e, onde o caso já tinha acontecido, o exemplo real mais recente até a conferência deste texto, em setembro de 2026, com data.

Quem joga quando o campeão faz a dobradinha
CompetiçãoExiste o problema?Regra em caso de dobradinhaExemplo mais recente até a conferência deste texto (setembro de 2026)
Community ShieldSimVice-campeão da Premier League assume a vaga da copaArsenal em 06/08/2023, dobradinha do Manchester City em 2022/23
Supercopa de EspañaSimMelhor colocado da Liga fora da final da Copa del ReyNão tinha acontecido desde a criação da Final Four, em 2020
Supercoppa ItalianaSimOrdem em cascata, descendo pela tabela da Serie ANão tinha acontecido desde a criação da Final Four, em 2023/24
Trophée des ChampionsSimVice-campeão da Ligue 1 assume a vaga da copaOlympique de Marselha em 13/01/2021, dobradinha do PSG em 2019/20
Franz Beckenbauer SupercupSimVice-campeão da Bundesliga assume a vaga da copaBorussia Dortmund em 22/08/2026, dobradinha do Bayern em 2025/26
Supercopa ReiSimVice-campeão do Brasileirão assume a vaga da copaFlamengo em 2022, dobradinha do Atlético-MG em 2021
Supercopa da UEFANão, impossível pela estrutura--
Recopa Sul-AmericanaNão, impossível pela estrutura--

Onde se joga, e por que o mapa mudou

Quatro das oito peças resistem a sair de casa. O Community Shield, apesar das três exceções já registradas, segue como jogo doméstico inglês. O Franz Beckenbauer Supercup sempre acontece na Alemanha, no estádio do clube mandante daquela edição, alternando entre os dois times. A Supercopa Rei sempre acontece em sede neutra dentro do próprio Brasil, com o Mané Garrincha, em Brasília, como palco mais recorrente. E a Recopa Sul-Americana, por ser jogada em dois jogos, sempre acontece nos estádios dos dois clubes envolvidos, um de cada vez.

As outras quatro viajam, por motivos diferentes. Espanha e Itália levaram a própria Final Four para a Arábia Saudita, por contrato comercial. A França decidiu, em 2009, levar o Trophée des Champions para fora do próprio território como estratégia de promoção internacional do futebol francês, e desde então já jogou em cidades da América do Norte, da África e do Golfo Pérsico, caso da edição de janeiro de 2026, na Cidade do Kuwait. A regra não é absoluta: a edição seguinte, em agosto de 2026, voltou para a França, sede definida por sorteio entre os clubes envolvidos e disputada no próprio estádio do RC Lens, prova de que a decisão de exportar o jogo se renova, ou não, a cada ano. A Supercopa da UEFA não tem intenção comercial de exportação: o regulamento da própria competição manda o jogo circular por uma cidade europeia diferente a cada ano, como parte do calendário europeu de sedes, sem fixar residência em lugar nenhum desde que Mônaco deixou de sediar todas as edições, em 2012.

A tabela seguinte junta as oito peças por padrão de sede, com a data em que o padrão atual começou a valer.

Onde se joga, e por que o mapa mudou
CompetiçãoOnde se joga hojeDesde quandoMotivo declarado
Community ShieldWembley, com exceções pontuais1974, com exceções em 2012, 2022 e 2026Tradição doméstica inglesa
Supercopa de EspañaArábia Saudita2020Contrato comercial da RFEF
Supercoppa ItalianaArábia Saudita, majoritariamente Riade2023/24Contrato comercial da Lega Serie A
Trophée des ChampionsFora da França na maioria das edições, sede variável por sorteio2009Promoção internacional do futebol francês
Franz Beckenbauer SupercupAlemanha, alternando mandante2010Tradição doméstica alemã
Supercopa ReiSede neutra dentro do Brasil2020Decisão da CBF ao recriar a competição
Supercopa da UEFACidade europeia diferente a cada ano2012Calendário rotativo da UEFA
Recopa Sul-AmericanaEstádios dos dois clubes finalistas2003Formato de ida e volta

Conta como título oficial?

É a discussão mais antiga em torno de qualquer supercopa, e nenhuma federação das oito resolveu de vez: o título vale o mesmo que um campeonato de pontos corridos ou que uma copa longa, ou é um troféu de categoria diferente?

A própria Inglaterra convive com a contradição sem escondê-la. O Community Shield fica de fora, por convenção da imprensa e do próprio meio do futebol inglês, de qualquer conta de dobradinha ou tríplice coroa, tratado como confronto de abertura de temporada, não como troféu maior. Ainda assim, a Football Association mantém um retrospecto oficial completo, por clube, desde 1908, o mesmo tipo de registro reservado às competições que ninguém questiona.

O Brasil oferece o retrato mais nítido dessa ambiguidade. Uma federação que levou trinta e cinco anos para entregar fisicamente um troféu já reconhecido é uma federação que, na prática, hesitou sobre o próprio peso daquele título. E quando a imprensa noticiou o título do Corinthians em 2026 como o segundo da história do clube na competição, contando a edição isolada de 1991, ficou claro que o critério em uso funde as duas eras, a antiga e a atual, num retrospecto só, apesar do hiato de vinte e nove anos entre elas.

A tabela a seguir fecha a comparação com o maior campeão de cada uma das oito peças, todas com a apuração datada.

Conta como título oficial?
CompetiçãoMaior campeãoTítulosApurado até
Community ShieldManchester United2116/08/2026
Supercopa de EspañaBarcelona1611/01/2026
Supercoppa ItalianaJuventus922/12/2025
Trophée des ChampionsParis Saint-Germain1416/08/2026
Franz Beckenbauer SupercupBayern de Munique1222/08/2026
Supercopa ReiFlamengo301/02/2026
Supercopa da UEFAReal Madrid612/08/2026
Recopa Sul-AmericanaBoca Juniors426/02/2026

O que esta comparação não resolve

Duas lacunas ficaram de fora por falta de lastro, e é melhor nomeá-las do que preencher com estimativa. A primeira é o valor exato pago a cada clube pela disputa da Supercopa de España e da Supercoppa Italiana na Arábia Saudita: os contratos comerciais entre as federações e os anfitriões sauditas não são públicos, diferente da tabela de premiação que a CONMEBOL publica, por exemplo, para as próprias competições continentais. A segunda é a sede da Supercoppa Italiana de 2027, que a Lega Serie A ainda não tinha anunciado quando esta apuração foi fechada, em 21 de setembro de 2026.

O que sustenta esta comparação é mais estreito e mais firme do que qualquer um desses dois pontos em aberto. As oito supercopas nasceram da mesma ideia, um jogo só entre dois campeões da temporada anterior, e nenhuma federação abriu mão da própria versão dela, mesmo depois de décadas de debate sobre o peso real do troféu. Duas mudaram de continente para disputar a peça por dinheiro. Quatro criaram uma regra para a dobradinha porque precisavam. Duas nunca vão precisar, porque a própria estrutura do calendário torna o problema impossível. E todas, sem exceção, seguem sendo disputadas para valer, com time titular em campo, o que nenhuma das oito trata como amistoso.

Enquete

Supercopa deve contar como título na galeria do clube?

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Correção · 21/09/2026

Correção (21/09): o texto dizia que a edição de 16/08/2026 foi no "Millennium Stadium", em Cardiff; o nome atual do estádio, desde 2016, é Principality Stadium. Dizia também que a Recopa Sul-Americana era "o único par de jogos entre as oito peças deste texto"; a Supercopa de España (1982 a 2017) e a primeira Supercopa do Brasil (1990) também foram disputadas em ida e volta, por isso o trecho agora diz "o único disputado hoje em ida e volta". Dizia que a Espanha jogava "trinta minutos de prorrogação, divididos em dois tempos de quinze"; a RFEF eliminou a prorrogação da Supercopa de España a partir da edição de janeiro de 2025, que desde então vai direto aos pênaltis, como as outras quatro de jogo único. E dizia que o nome mudou em 2002 "acompanhando o destino do dinheiro arrecadado"; essa causa não tinha fonte no pacote original e foi retirada sem substituição.

Correção · 23/09/2026

Algumas frases prendiam o guia ao dia da apuração e perderiam a validade com o tempo; agora citam a data de cada edição. "Na edição mais recente" (Supercopa de España, Trophée des Champions e Supercopa Rei) passou a nomear a edição pela data do jogo, e "A edição mais recente terminou em 22 de dezembro de 2025" (Supercoppa Italiana) virou "Na edição encerrada em 22 de dezembro de 2025"; as contagens que vinham junto passaram ao passado, em relação àquela edição: "O Real Madrid somava treze", "A Juventus liderava o retrospecto" e "O Flamengo seguiu como maior campeão". A tabela dos exemplos de dobradinha e a frase que a apresenta passaram a datar o exemplo mais recente pela conferência deste texto, em setembro de 2026, e as células "Não aconteceu desde a criação da Final Four" viraram "Não tinha acontecido". Nenhum fato mudou.

Fontes

Perguntas frequentes

O que é o Community Shield?
É a supercopa do futebol inglês, uma partida única disputada antes do início da temporada entre o campeão da Premier League e o campeão da Copa da Inglaterra. É organizada pela federação inglesa e a renda vai para causas beneficentes e comunitárias.
Quem joga se o mesmo clube ganha a liga e a copa?
Quando um clube faz a dobradinha, não sobra um segundo campeão, então a vaga passa para o vice-campeão da Premier League. A decisão vira, assim, uma revanche entre os dois melhores da liga.
O Community Shield tem prorrogação?
Não. Se o empate persistir no fim do tempo normal, a partida vai direto para os pênaltis. Em épocas anteriores, o empate levava os dois clubes a dividir o troféu.
O Community Shield é a Supercopa da Inglaterra?
É o mesmo torneio. O Community Shield é a supercopa do futebol inglês: uma partida única, disputada antes do início da temporada, entre o campeão da Premier League e o campeão da Copa da Inglaterra.

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