Supercopa da UEFA: como a partida mais desequilibrada do calendário virou a mais apertada
Em 51 edições a Supercopa passou de goleada de duas pernas a jogo único decidido no detalhe: 62,5% terminam com um gol de diferença ou empatados, e quatro das últimas oito foram aos pênaltis.


Em 12 de agosto de 2026, em Salzburg, o Paris Saint-Germain venceu o Aston Villa por 2 a 1 e ficou com a Supercopa da UEFA pela segunda vez seguida. É um feito mais raro do que parece: nas 51 edições disputadas entre 1973 e 2026, apenas três clubes venceram duas seguidas, e os outros dois são o Milan de 1989 e 1990 e o Real Madrid de 2016 e 2017.
A Supercopa é o troféu mais fácil de explicar do calendário europeu e o mais difícil de encaixar nele. Uma partida só, em campo neutro, entre o campeão da Champions League e o campeão da Europa League, disputada em agosto. Sem fase de grupos, sem ida e volta, sem segunda chance. E, como quase tudo nela, esse desenho é recente.
Ela nasceu goleada, e em duas pernas
De 1973 a 1997, a Supercopa foi disputada quase sempre em ida e volta, como uma eliminatória qualquer, e o placar agregado produzia resultados que hoje seriam impensáveis. Foram 19 edições nesse formato, e só três de jogo único, em 1984, 1986 e 1991. Nem todo ano teve uma: 1974, 1981 e 1985 passaram em branco, e a própria UEFA registra que em 1974 Bayern e Magdeburg não conseguiram marcar data e que em 1981 o Liverpool não conseguiu abrir espaço no calendário para enfrentar o Dinamo Tbilisi.
| A Supercopa por formato | Duas pernas | Jogo único |
|---|---|---|
| Edições | 19 | 32 |
| Gols por edição | 4,74 | 3,03 |
| Margem média | 2,42 | 1,28 |
| Maior placar da era | 11 gols | 9 gols |
A diferença não é de estilo, é de aritmética. O agregado somava dois jogos e, com eles, somava o desequilíbrio: quem era melhor tinha 180 minutos para provar, e o clube em má fase tinha o dobro de tempo para se afundar. O jogo único cortou a amostra pela metade e, com ela, cortou a margem.
| Edição | Resultado no agregado | Margem |
|---|---|---|
| 1996 | Juventus 9-2 Paris Saint-Germain | 7 |
| 1977 | Liverpool 7-1 Hamburgo | 6 |
| 1973 | Ajax 6-1 Milan | 5 |
| 1995 | Ajax 5-1 Zaragoza | 4 |
Olhe a primeira linha. Em 1996 a Juventus fez 9 a 2 no Paris Saint-Germain, e o clube que levou aquela goleada é o mesmo que venceu a competição duas vezes seguidas em 2025 e 2026. Um placar desses não é apenas improvável no formato adotado em 1998: ele é impossível, porque nele não existe o segundo jogo em que aquele placar se formava.
Hoje é o jogo mais apertado que a UEFA organiza
Nas 32 edições de jogo único, 20 terminaram com um gol de diferença ou empatadas ao fim do tempo jogado. São 62,5%. E 12 delas, 37,5%, não couberam em 90 minutos.
| Margem no jogo único | Edições |
|---|---|
| Empate, decidido nos pênaltis | 5 |
| 1 gol | 15 |
| 2 gols | 10 |
| 3 gols | 2 |
A distribuição é quase toda de um lado. Quinze edições decididas por um gol, cinco que só se resolveram nos pênaltis, e apenas duas com três de diferença. No formato de duas pernas a Supercopa era o jogo em que o campeão europeu confirmava o que era; no de jogo único, é o jogo em que ele quase escorrega.
Os pênaltis viraram rotina, e a prorrogação sumiu das duas últimas
Cinco das 32 edições de jogo único foram aos pênaltis, e não do mesmo jeito. Em 2013, 2019 e 2021 o registro da UEFA anota prorrogação antes das cobranças. Nas de 2023 e 2025 não há prorrogação anotada: o placar dos 90 minutos foi direto para a marca da cal.
| Edição | Tempo normal | Pênaltis | Teve prorrogação |
|---|---|---|---|
| 2013 | Bayern 1-1 Chelsea | 5-4 | sim |
| 2019 | Liverpool 1-1 Chelsea | 5-4 | sim |
| 2021 | Chelsea 1-1 Villarreal | 6-5 | sim |
| 2023 | Manchester City 1-1 Sevilla | 5-4 | não |
| 2025 | Paris 2-2 Tottenham | 4-3 | não |
E a frequência disparou. Nas oito edições de 2019 a 2026, cinco passaram dos 90 minutos e quatro foram aos pênaltis. São quatro disputas de pênaltis nas últimas oito Supercopas, contra uma única nas 24 edições de jogo único anteriores a elas.
O paradoxo de agosto
Aqui entra uma medição que não sai de nenhum almanaque: ela sai do nosso acervo, que tem 23.856 partidas de 26 competições. A pergunta parecia óbvia e a resposta não é. Agosto é um mês vazio no futebol europeu? Não. É o mais cheio do ano.
| Quinzena da temporada 2025/26 | Partidas no acervo |
|---|---|
| 1 a 15 de agosto | 553 |
| 16 a 31 de agosto | 840 |
| 1 a 15 de outubro | 307 |
| 1 a 15 de março | 387 |
Foram 1.393 partidas em agosto de 2025, dentro de um total de 8.196 na temporada inteira. A quinzena da Supercopa, de 1 a 15 de agosto, teve 553 jogos, quase o dobro de uma quinzena de outubro. O continente está jogando muito quando a Supercopa acontece. O detalhe é que não são os dois finalistas que estão jogando.
| Competição | Abertura de 2026/27 | Em relação à Supercopa |
|---|---|---|
| Eredivisie | 7 de agosto | 5 dias antes |
| LaLiga | 15 de agosto | 3 dias depois |
| Premier League | 21 de agosto | 9 dias depois |
| Ligue 1 | 21 de agosto | 9 dias depois |
| Serie A | 22 de agosto | 10 dias depois |
| Bundesliga | 28 de agosto | 16 dias depois |
Os dois finalistas de 2026 não haviam disputado nenhuma partida oficial, em nenhuma das 26 competições que o nosso acervo cobre, entre o primeiro dia de julho e o dia da final. A Premier League do Aston Villa e a Ligue 1 do Paris só abriram em 21 de agosto, nove dias depois de o troféu ser levantado. Nove das 24 ligas do acervo ainda nem tinham começado a temporada.
Quem tem a bola não tem o jogo
O acervo guarda as edições de 2024, 2025 e 2026 com estatística por equipe, e as de 2025 e 2026 contam a mesma história duas vezes seguidas.
| Edição e clube | Posse | Finalizações | Passes certos |
|---|---|---|---|
| 2025 Paris, campeão da Champions | 74% | 12 | 91% |
| 2025 Tottenham, campeão da Europa | 26% | 13 | 70% |
| 2026 Paris, campeão da Champions | 61% | 12 | 89% |
| 2026 Aston Villa, campeão da Europa | 39% | 15 | 78% |
Em 2025 o Tottenham teve 26% da posse e fez 194 passes contra 572 do Paris, e mesmo assim finalizou mais, 13 contra 12, e levou a decisão aos pênaltis. Em 2026 o Aston Villa teve 39% da bola, finalizou 15 contra 12 e criou mais ataques perigosos, 55 contra 46, e perdeu. Nas duas edições o campeão da Europa League finalizou mais que o campeão da Champions. Nas duas ele não venceu.
O clube que a Supercopa não deixa vencer
Se há um clube que esta competição marcou, é o Sevilla. Até 2026 são sete finais, um único título e seis derrotas. Nenhum outro clube perdeu tanto aqui, e o motivo é justamente o que o levou até lá.
| Clube | Finais até 2026 | Títulos | Derrotas |
|---|---|---|---|
| Real Madrid | 9 | 6 | 3 |
| Barcelona | 9 | 5 | 4 |
| Milan | 7 | 5 | 2 |
| Sevilla | 7 | 1 | 6 |
| Liverpool | 6 | 4 | 2 |
| Atlético de Madrid | 3 | 3 | 0 |
Real Madrid e Barcelona lideram em presenças, com nove cada. Mas a linha que salta é a do Atlético de Madrid: três finais, três títulos, nenhuma derrota, o único clube que chegou três vezes e nunca perdeu. Outros três venceram as duas finais que disputaram: Anderlecht, Juventus e Valencia. O Paris, vice em 1996, venceu as de 2025 e 2026. O Sevilla é o espelho do Atlético. Ele aparece mais do que quase todo mundo porque vence a Europa League, e é exatamente por isso que reencontra o campeão da Champions de novo e de novo.
A Supercopa de 2027 será na Johan Cruyff ArenA, em Amsterdam, e a de 2028 no Astana Arena, a primeira no Cazaquistão. Vale reparar num número que não está em nenhuma tabela acima: as duas últimas edições foram disputadas em estádios de cerca de 25 mil e 30 mil lugares, em Udine e em Salzburg. É um troféu continental decidido em praças médias, em agosto, entre dois times que ainda não começaram a temporada. Quem ainda chama isso de amistoso com taça não olhou o placar das últimas oito.
O que mais explica a Supercopa ter ficado tão apertada?
Este guia dizia que o Paris estava entre os clubes que venceram as duas finais que disputaram; o Paris disputou três, perdeu a de 1996 e venceu as de 2025 e 2026, e os clubes com duas finais e dois títulos são três, Anderlecht, Juventus e Valencia, e não quatro. Dizia também que a Supercopa foi disputada em ida e volta de 1973 a 1997, quando houve três jogos únicos (1984, 1986 e 1991), e que em 1981 os dois clubes não marcaram data, quando a UEFA registra que foi o Liverpool que não abriu espaço; que cinco edições não se resolveram em 90 minutos, quando foram 12, e as cinco são as decididas nos pênaltis; que 2013 e 2019 terminaram 2 a 2 no tempo normal, quando foi 1 a 1; que o estádio de Varsóvia, sede de 2024, comportava 54.378 pessoas, número que não é o dele; e que a Supercopa nem sempre tem prorrogação, quando a regra atual manda o empate direto para os pênaltis.
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Perguntas frequentes
- Como funciona a Supercopa da UEFA?
- É uma partida só, em campo neutro, em agosto, entre o campeão da Champions League e o campeão da Europa League. Não há ida e volta desde o formato adotado em 1998, e quem perde não tem segunda chance.
- A Supercopa da UEFA tem prorrogação?
- Não pela regra atual: empatada nos 90 minutos, a partida vai direto para os pênaltis. Das 32 edições de jogo único, 5 foram aos pênaltis: em 2013, 2019 e 2021, ainda com prorrogação antes das cobranças, e em 2023 e 2025, sem ela. Até 2022, a regra previa 30 minutos de prorrogação.
- Quem mais ganhou a Supercopa da UEFA?
- O Real Madrid, com 6 títulos em 9 finais até 2026. O Barcelona também chegou a 9 finais, com 5 títulos. O caso mais duro é o do Sevilla: 7 finais e um único título.
- Por que a Supercopa é disputada em agosto?
- Ela abre a temporada europeia. O efeito é que em 2026 os dois finalistas não tinham jogado nenhuma partida oficial das 26 competições do nosso acervo: a Premier League e a Ligue 1 só abriram 9 dias depois da final.
- Onde vai ser a Supercopa da UEFA de 2027?
- Na Johan Cruyff ArenA, em Amsterdam. A edição de 2028 está marcada para o Astana Arena, a primeira vez que a Supercopa será disputada no Cazaquistão.
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