Hat-trick, poker e outros termos do futebol: guia completo
Hat-trick, poker, chapéu, caneta, gol olímpico e clean sheet: o que cada termo significa, de onde veio e por que muda de nome em cada país.


Hat-trick é quando o mesmo jogador marca três gols em uma única partida; poker é quando ele chega a quatro no mesmo jogo. Nenhum dos dois termos aparece nas Regras do Jogo, que definem como se joga futebol mas nada dizem sobre quantos gols cabem a um indivíduo. São convenções nascidas na imprensa, adotadas pela torcida e transformadas em linguagem corrente. Entender esse vocabulário é entender como o futebol se expressa: metade tradição inglesa, metade empréstimo de outros esportes e até de jogos de cartas.
No sentido mais aceito, o hat-trick exige apenas três gols na mesma partida, sem importar a ordem, o intervalo entre eles ou a forma. Pênaltis contam, gols na prorrogação contam e um chute desviado no defensor costuma ser creditado ao atacante quando ia na direção do gol. Cobranças na disputa por pênaltis nunca contam, porque a série é um critério de desempate e não faz parte do placar. Para dois gols, o inglês usa brace; o português brasileiro simplesmente diz que o camisa 9 marcou duas vezes.
O que conta como gol de um jogador
Nem todo gol tem autor óbvio. A estatística oficial trata a dúvida com mais rigor do que a mesa de bar. Gol contra nunca entra na conta de quem marcou: a Opta, fornecedora oficial de dados da Premier League, debita o lance ao time que se beneficiou, sem crédito a jogador nenhum. Gol na disputa de pênaltis também fica de fora. A disputa só começa depois de a partida ter terminado oficialmente, e o placar registrado trata o confronto como empate até ali, qualquer que seja o resultado das cobranças.
O caso que gera discussão é o desvio: se o chute original já ia na direção da meta, o gol fica com quem chutou; se o desvio muda o destino de uma bola que ia para fora, o crédito passa para quem deu o toque decisivo. A Premier League resolve isso com um colegiado batizado de Goal Accreditation Panel, até pouco tempo atrás chamado Dubious Goals Committee: três pessoas, um representante da Pro Ref e dois especialistas em futebol, avaliando o lance sempre que a autoria fica em aberto, com identidade preservada para blindar a decisão de pressão de clube ou de jogador.
A autoria de um gol não é só curiosidade de estatístico. Contratos de jogador costumam ter bônus por gol marcado, prêmios de artilheiro dependem do número exato, e uma disputa de Chuteira de Ouro decidida por um gol mal atribuído vira problema de imagem para a própria competição. Fora da Premier League, esse rigor não tem o mesmo palco público: esta apuração não achou, em Bundesliga, LaLiga, Serie A, Ligue 1 ou Brasileirão, um processo de arbitragem estatística divulgado com o mesmo grau de detalhe, o que não prova que não exista, só que nenhuma das cinco o publicita como a Premier League publicita o seu.
O videoárbitro mudou o momento em que um hat-trick se confirma. Um terceiro gol anulado pelo VAR por impedimento ou por falta na jogada que o originou nunca chega a existir para efeito de estatística, mesmo que a comemoração já tenha acontecido em campo. O hat-trick só nasce quando a arbitragem confirma o gol, não quando a bola cruza a linha pela primeira vez aos olhos de quem está na arquibancada.
| Situação | Conta para o hat-trick? |
|---|---|
| Gol de pênalti convertido durante a partida | Conta |
| Gol marcado na prorrogação | Conta |
| Chute que já ia na direção do gol e foi desviado | Conta, creditado a quem chutou |
| Chute que ia para fora e foi desviado para dentro por outro jogador | Conta, creditado a quem desviou por último |
| Gol contra | Não conta, vai para o placar do adversário sem autor individual |
| Gol marcado na disputa de pênaltis, após o empate | Não conta, a disputa corre depois do fim oficial da partida |
As tradições mais rígidas
A confusão começa nas tradições mais rígidas. Na Alemanha, durante décadas, hat-trick significava três gols no mesmo tempo de jogo, seguidos, sem nenhum outro gol no meio: o chamado hat-trick clássico. Já o hat-trick perfeito é aquele com um gol de pé direito, um de pé esquerdo e um de cabeça, em qualquer ordem. Nada disso é oficial nem regulamentado por federação alguma. As definições convivem, e cada narrador usa a que o seu público reconhece de imediato.
Os alemães têm uma palavra para a versão mais dura do hat-trick, e ela vive dentro do próprio Duden: lupenreiner Hattrick, o hat-trick impecável. A exigência é dupla, os três gols na mesma etapa da partida, em sequência direta, sem que nenhum outro jogador marque no meio. Não é regra de federação nenhuma, é convenção de dicionário e de imprensa esportiva andando juntas. Em 11 de maio de 2025, a base do clube viu um caso de manual: pela equipe sub-17 do Borussia Mönchengladbach, nas quartas de final da DFB-Nachwuchsliga (a liga de categorias de base da federação alemã), Niko Horvat marcou aos 63, aos 78 e aos 88 minutos na vitória por 4 a 3 sobre o Hoffenheim, e a própria DFB descreveu o feito no site oficial como lupenreiner Hattrick.
O fato não é isolado. Fonte oficial da própria Bundesliga registrou outro par de casos na mesma rodada, a 23ª da temporada 2024/25, em 22 de fevereiro de 2025: Serhou Guirassy fez os três gols do Borussia Dortmund aos 75, aos 80 e aos 83 minutos contra o Union Berlin, e Alexis Claude-Maurice fez o mesmo pelo Augsburg aos 55, aos 61 e aos 70 minutos contra o próprio Mönchengladbach, dois lupenreiner Hattrick na mesma rodada.
Nenhuma das outras cinco línguas deste guia embutiu a mesma condição no verbete de dicionário. Inglês, espanhol, francês, italiano e português tratam qualquer trinca de gols na mesma partida como hat-trick, ponto final, e reservam a versão restrita para um adjetivo solto, clássico ou perfeito. Nenhuma fonte histórica encontrada nesta apuração explica o motivo. O que fica registrado é o padrão: a mesma língua que também produziu Dreierpack, Doppelpack e os mais soltos Viererpack e Fünferpack, sem que estes dois últimos cheguem a entrar no Duden, é a que prefere nomear a exceção com precisão de regulamento.
A expressão vem do críquete. Na Inglaterra do século XIX, o lançador que eliminava três adversários com três bolas consecutivas ganhava um chapéu, às vezes pago por uma vaquinha entre os espectadores, às vezes oferecido pelo clube. O futebol adotou o termo no período de profissionalização e a imagem do chapéu como prêmio por um feito raro sobreviveu ao próprio costume. O ritual não desapareceu: até hoje o autor dos três gols leva a bola da partida para casa, gesto compreendido em qualquer estádio do mundo.
A origem mais contada situa o hat-trick num campo de críquete inglês. Em 1858, o profissional Heathfield Harman Stephenson, do Surrey, jogava pela seleção All-England Eleven contra vinte e dois amadores de Hallam e Staveley quando eliminou três batedores com três bolas seguidas, no Hyde Park Ground de Sheffield, um campo que empresta o nome do parque de Londres sem ser ele. O relato da época, publicado no jornal Bell's Life in London and Sporting Chronicle em 12 de setembro de 1858, registra que o feito lhe deu direito a um chapéu novo, presenteado pelo próprio time.
A palavra em si é mais nova que o lance. O relato de 1858 fala em chapéu, não em hat-trick, e quando a expressão apareceu impressa pela primeira vez é uma questão em aberto: uma versão aponta 1865, num jornal de Chelmsford; outra aponta 28 de agosto de 1878, quando o australiano Fred Spofforth eliminou três batedores ingleses seguidos em Hastings, e o jornal The Sportsman registrou o feito no dia seguinte, quase vinte anos depois de Stephenson. O futebol nunca herdou o chapéu, e sim a metáfora: a bola de jogo entregue ao autor do hat-trick é costume próprio do esporte, sem elo documentado com o prêmio do críquete além do nome que os dois dividem.
As referências fixas da história
A história oferece as referências fixas. O hat-trick mais celebrado segue sendo o de Geoff Hurst pela Inglaterra na final da Copa de 1966, o primeiro em uma decisão de Mundial e, por muitas décadas, o único. No Brasil, a tradição de artilheiros que enchiam o saco de gols em uma tarde vem de longe, de Pelé a Romário, e sempre virou assunto de mesa de bar. É justamente a raridade dessas atuações no futebol moderno, com marcação organizada e substituições, que as transforma em folclore.
Antes de Mbappé, só Geoff Hurst tinha feito isso. Na final da Copa de 2022, o francês marcou aos 80 minutos, de pênalti, e converteu outro gol logo em seguida para empatar em 2 a 2 um jogo que a Argentina vencia. A França ainda sofreu a virada argentina na prorrogação, e Mbappé converteu um terceiro gol, também de pênalti, aos 118 minutos, dentro do tempo de jogo e antes de qualquer cobrança de disputa, fechando o placar em 3 a 3. A Argentina levantou a taça nos pênaltis, por 4 a 2, mas o hat-trick de Mbappé já estava fechado, o segundo da história em uma final de Copa do Mundo, quase sessenta anos depois de Hurst.
A final de 2026, disputada em 19 de julho, terminou Espanha 1 a 0 Argentina, gol de Ferran Torres na prorrogação, sem hat-trick nenhum em campo: até a conferência deste texto, Hurst e Mbappé seguem sendo os dois únicos.
| Recorde | Quem, quando |
|---|---|
| Hat-trick mais rápido da Premier League | Sadio Mané, 2min56s, Southampton 6 a 1 Aston Villa, 16 de maio de 2015 |
| Primeiro hat-trick em final de Copa do Mundo | Geoff Hurst, Inglaterra 4 a 2 Alemanha Ocidental, 1966 |
| Segundo hat-trick em final de Copa do Mundo; a final de 2026 não teve nenhum | Kylian Mbappé, França 3 a 3 Argentina, campeã nos pênaltis por 4 a 2, 2022 |
| Primeiro hat-trick de pênaltis da história da Premier League | Justin Kluivert, pelo Bournemouth, três pênaltis no Wolverhampton 2 a 4 Bournemouth, 30 de novembro de 2024 |
| Mais gols de um jogador numa única partida de Copa do Mundo | 5 gols, o mesmo número nos dois torneios: Oleg Salenko, Rússia 6 a 1 Camarões, 28 de junho de 1994; Michelle Akers, Estados Unidos 7 a 0 Chinese Taipei, 24 de novembro de 1991; Alex Morgan, Estados Unidos 13 a 0 Tailândia, 11 de junho de 2019 |
A Copa de 2026 já entrou para a lista antes mesmo da final. Lionel Messi abriu a conta na estreia da Argentina, com três gols sobre a Argélia, em 16 de junho. Jonathan David fez o mesmo pelo Canadá, no 6 a 0 sobre o Catar, dois dias depois. Ousmane Dembélé marcou os três da França no 4 a 1 sobre a Noruega, em 26 de junho. E Bukayo Saka fechou a lista já no mata-mata, com três gols no 6 a 4 sobre a própria França, na disputa pelo terceiro lugar, em 18 de julho. Quatro hat-tricks num único Mundial, e nenhum deles na decisão.
O recorde de gols de um jogador numa única partida de Copa do Mundo é o mesmo nos dois torneios: cinco gols. No masculino, é de Oleg Salenko, pela Rússia, no 6 a 1 sobre Camarões, em 28 de junho de 1994. No feminino, o número foi alcançado duas vezes: por Michelle Akers, pelos Estados Unidos, no 7 a 0 sobre Chinese Taipei, em 24 de novembro de 1991, e por Alex Morgan, também pelos Estados Unidos, no 13 a 0 sobre a Tailândia, em 11 de junho de 2019. Em 2026, nenhum chegou perto: os quatro hat-tricks do torneio pararam em três gols cada.
Hat-trick de partida é fato datável, fechado no apito final. Hat-trick de carreira é outra conversa, porque muda toda semana em que o jogador segue em campo, e é exatamente aí que a comparação mais repetida nas redes sociais costuma pisar em falso. O recorde reconhecido pelo Guinness World Records nem pertence a nenhum dos quatro nomes que mais aparecem nessa comparação: é de Pelé, com 92 hat-tricks somando Santos, New York Cosmos e a seleção brasileira, um número de outra era que segue sem desafiante à vista.
| Jogador | O que dá para confirmar | Fonte e data |
|---|---|---|
| Cristiano Ronaldo | 66 hat-tricks, somando clube e seleção | Planet Football, 30 de agosto de 2026 |
| Lionel Messi | 62 hat-tricks, somando clube e seleção, já contando o da Copa de 2026 contra a Argélia | Planet Football, 30 de agosto de 2026 |
| Robert Lewandowski | 6 hat-tricks pela seleção da Polônia, mas o número circula só em sites de estatística de torcedor, sem contagem oficial da federação polonesa; nenhum total de carreira, somando clubes, foi encontrado com fonte confiável | sites de estatística de seleções, não a federação, até 10 de outubro de 2019 |
| Harry Kane | 9 hat-tricks só na Bundesliga, sem contar Premier League nem seleção, sem total de carreira com fonte confiável até o fechamento deste texto | Bundesliga.com, 23 de setembro de 2025 |
O vocabulário se multiplica nas fronteiras. Em espanhol, poker vale por quatro; manita não é gol de jogador nenhum, é a goleada de cinco a zero que um time aplica no outro, popularizada pelos clássicos entre Real Madrid e Barcelona; na Itália se fala doppietta, tripletta, poker e pokerissimo; em francês, doublé, triplé e quadruplé; em alemão, Doppelpack, Dreierpack e Viererpack. Atenção a uma armadilha: em espanhol, triplete quase sempre significa conquistar três títulos na mesma temporada, não marcar três gols. No Brasil, poker é usado ao lado da forma mais direta, quatro gols, sem que uma substitua a outra.
O glossário das seis línguas
A comparação por trás desse mapa tem armadilha em quase toda língua, não só em espanhol. No Brasil, tripleta às vezes aparece na manchete para três TÍTULOS conquistados na mesma temporada, o mesmo desvio que o espanhol comete com triplete: a RAE reconhece os dois sentidos, títulos e também três gols de um jogador, este segundo só desde 2021, e quem usa os dois sem avisar confunde o leitor sobre se está falando de gol ou de taça. O próprio alemão tem a ambiguidade dentro de casa: o Duden registra um segundo sentido para Hattrick, qualquer sucesso triplo num campeonato ou equivalente, sem exigir gol nenhum, e só o contexto separa isso dos três gols de uma partida.
| Gols de um jogador | Português | Inglês | Espanhol | Alemão | Francês | Italiano |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2 | descreve, marcou duas vezes | brace | doblete | Doppelpack | doublé | doppietta |
| 3 | hat-trick | hat-trick | hat-trick | Hattrick ou Dreierpack | triplé | tripletta |
| 4 | poker | descreve, four-goal haul | póker | Viererpack | quadruplé | poker |
| 5 | descreve, cinco gols | descreve, five-goal haul | descreve, cinco goles | Fünferpack | quintuplé | pokerissimo ou cinquina |
A tabela esconde uma assimetria que vale a pena destacar. Doppietta, no italiano, hat-trick, no português e no inglês, e Hattrick, no alemão, têm entrada de dicionário que já nomeia o gol de futebol; o espanhol tem entrada também, mas para outra palavra: a Fundéu recomenda triplete no lugar do empréstimo hat-trick, e a RAE passou a reconhecer esse sentido, três gols de um jogador, em triplete desde 2021, embora a imprensa em espanhol continue preferindo hat-trick no dia a dia. O francês guarda o sentido de gol só no Wikcionário, não no Larousse. O alemão tem, ao mesmo tempo, Viererpack e Fünferpack circulando nos jornais sem nunca terem entrado no Duden. E pokerissimo, o mais charmoso dos cinco, é usado tanto para um jogador marcar cinco quanto para um time vencer por cinco a zero, ambiguidade que a imprensa italiana raramente resolve.
Fora da conta de gols, o futebol batizou cada detalhe do campo. Clean sheet é o jogo sem sofrer gol; assistência é o passe que gera o gol diretamente; caneta é a bola passada entre as pernas do adversário, e chapéu é a bola erguida por cima dele. Cavadinha é o pênalti cortado no meio do gol, conhecido lá fora como Panenka, em homenagem ao meia tcheco que ousou fazê-lo em uma decisão europeia. Gol olímpico, cobrança de canto que entra direto, nasceu na América do Sul, quando um gol assim atingiu a seleção campeã olímpica dos anos 1920.
Outros lances, outros nomes
Hat-trick e poker têm dono e data de nascimento discutíveis, mas pelo menos têm um culpado provável. Boa parte dos outros lances do futebol disputa a própria paternidade entre dois ou três países ao mesmo tempo, e a única honestidade possível é contar a disputa, não fingir que ela não existe.
| Lance | Origem | Quando e onde |
|---|---|---|
| Cavadinha (Panenka) | Antonín Panenka, cobrando o quinto pênalti da disputa na final da Eurocopa contra a Alemanha Ocidental | 20 de junho de 1976, Estádio Estrela Vermelha, Belgrado |
| Gol olímpico | Cesáreo Onzari, direto de escanteio, contra o Uruguai, então campeão olímpico vigente | 2 de outubro de 1924, Buenos Aires |
| Rabona | Ricardo Infante, do Estudiantes de La Plata, cruzando a perna direita atrás da esquerda; as fontes divergem sobre o lance que originou o gol, um chute de cerca de 35 metros no rebote de um remate de Julio Gagliardo (versão mais difundida, inclusive no site do próprio clube) ou um rebote curto após a bola bater na trave; a revista "El Gráfico" escreveu em 07/10/1948 que o lance "no tiene reconstrucción posible" | 19 de setembro de 1948, contra o Rosario Central |
| Bicicleta | Disputada entre três países: o chileno Ramón Unzaga, por volta de 1914, trabalhadores do porto peruano do Callao desde cerca de 1892, a chalaca, e o brasileiro Petronilho de Brito, a quem Leônidas da Silva credita o lance | sem consenso, a própria CONMEBOL trata como disputa em aberto |
| Trivela | O golpe está bem definido, bater com a parte externa do pé para dar efeito à bola; a origem da PALAVRA é classificada como obscura pelos dicionários de português | sem data de origem confiável |
A trivela é o caso mais curioso: o lance tem nome firme e definição de dicionário, mas ninguém sabe ao certo de onde veio a palavra, e a teoria mais repetida por aí, a de uma ferramenta de carpinteiro que gira como o pé do jogador, não aparece em nenhum dicionário sério consultado nesta apuração. O nutmeg do inglês, a caneta que passa a bola entre as pernas do adversário, tem o mesmo problema: a explicação mais contada, ligada ao comércio de noz-moscada do século 19, concorre com pelo menos outras duas teorias, e nenhum pesquisador cravou qual delas é a certa. O futebol adora uma etimologia de bar. Nem sempre ela resiste à checagem.
Um hat-trick deveria exigir três gols seguidos?
Corrigimos um erro: dizíamos que "manita" é como o espanhol chama cinco gols de um jogador. Manita é o placar de um time vencendo por 5 a 0, não os gols de um jogador só. Também tiramos uma frase sem fonte sobre a popularização do poker no Brasil, ajustamos a citação de gol olímpico na edição italiana (é escanteio, não falta) e demos fonte real ao pokerissimo, no lugar do lugar-comum.
Corrigimos um detalhe da origem da rabona: o relato da época (jornais "El Mundo" e "Democracia", 19/09/1948) descreve um rebote de bola na trave a curta distância do gol, não um chute de 35 metros.
Correção (21/09): o texto dizia que o recorde masculino de gols numa única partida de Copa do Mundo "é bem mais modesto que o feminino"; o recorde é o mesmo nos dois torneios, cinco gols, de Oleg Salenko (1994) no masculino e de Michelle Akers (1991) e Alex Morgan (2019) no feminino. Também dizia que "a Bundesliga viu um caso de manual" no hat-trick de Niko Horvat: foi um jogo da equipe sub-17, nas quartas de final da DFB-Nachwuchsliga, não da Bundesliga profissional. Saiu a atribuição à NPR de uma frase que a emissora não disse, sobre "os registros não são suficientes para cravar a data" do primeiro uso impresso de "hat-trick". E a correção desta tarde sobre a rabona de Ricardo Infante apresentou como certa a versão de um "rebote de bola na trave a curta distância do gol", quando as fontes de época divergem: a mais difundida, inclusive no site do próprio clube de Infante, fala em um chute de cerca de 35 metros, não em um toque curto. A tabela de recordes repetia o erro, com só as duas americanas na linha de mais gols numa partida de Copa: agora traz os três.
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- Fundeu BBVA: manito / manita, FundeuRAE (abre em nova aba)
- RAE: poquer, Diccionario de la lengua espanola, RAE-ASALE (abre em nova aba)
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- NPR: From gifting a hat to tossing them onto the rink, a history of hat tricks in sports (abre em nova aba)
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Perguntas frequentes
- Por que se chama hat-trick?
- O termo vem do críquete, onde o jogador que eliminava três adversários com três bolas seguidas era premiado com um chapéu. O futebol emprestou a expressão para os três gols de um mesmo atleta, e a ideia de prêmio sobrevive no costume de dar a bola da partida ao autor dos gols.
- O que é um poker no futebol?
- Poker são quatro gols marcados pelo mesmo jogador em uma única partida. Em espanhol, manita não serve para isso: é o placar de um time vencendo por cinco a zero, não os gols de um jogador só. Em italiano, cinco gols de um jogador costumam ganhar o apelido de pokerissimo, embora nenhum dicionário registre o termo; no Brasil, a expressão mais usada segue sendo simplesmente cinco gols.
- O que é um hat-trick perfeito?
- É o hat-trick com um gol de pé direito, um de pé esquerdo e um de cabeça, em qualquer ordem. Não se trata de uma categoria oficial, apenas de uma forma de destacar a versatilidade do atacante.






