VAR no futebol: como funciona o árbitro de vídeo
O que o VAR pode revisar, o critério do erro claro e evidente, a chamada ao monitor e o impedimento semiautomático: o guia completo.


VAR é a sigla em inglês para árbitro assistente de vídeo: um árbitro habilitado que acompanha a partida de uma sala de operações, com acesso às câmeras da transmissão, e que pode avisar o árbitro de campo quando houve um erro claro e evidente. O VAR não é um segundo juiz e não opina sobre cada lance. Pelo protocolo de 2026/27, o escopo é propositalmente estreito: quatro tipos de decisão capazes de mudar o jogo, mais um quinto, novo nessa edição, que cada competição pode adotar. A decisão final é sempre de quem está em campo.
Na prática, o árbitro de vídeo faz uma checagem silenciosa em todo lance que termina numa dessas categorias. A maioria dura poucos segundos e ninguém no estádio percebe. Se o VAR entende que a decisão pode estar errada, começa a revisão: ou o árbitro aceita a informação transmitida pelo rádio, o que é comum em questões factuais como impedimento, ou vai até o monitor à beira do gramado. O retângulo desenhado no ar com as duas mãos indica que o procedimento de vídeo está em curso.
As categorias revisáveis
O VAR revisa cinco categorias segundo o protocolo de 2026/27, que entrou em vigor em 1º de julho de 2026. Quatro delas valem em todas as partidas em que ele é usado: gol e infrações na jogada que o originou, marcação de pênalti, cartão vermelho e identidade trocada. O vermelho inclui o que resulta de um segundo amarelo claramente errado, e a identidade trocada se aplica quando o árbitro adverte ou expulsa o jogador errado, seja qual for a equipe. A quinta é opção de cada competição: o escanteio claramente mal marcado, se a decisão puder ser corrigida na hora, sem atrasar o reinício. Existe ainda a chamada fase de posse ofensiva: a revisão só volta até o momento em que a equipe atacante ganhou o controle da bola. Por isso uma falta ou impedimento imediatamente anterior anula o gol, mas um lance de minutos antes não.
O futebol resistiu à tecnologia por décadas e pagou a conta com injustiças célebres: a mão de Maradona na Copa de 1986, a bola de Lampard que entrou contra a Alemanha em 2010, a mão de Henry na repescagem para o Mundial. Depois de testes na metade dos anos 2010, a International Football Association Board incorporou o árbitro de vídeo às Regras do Jogo em 2018, e a Copa da Rússia foi a primeira a usá-lo. Serie A e Bundesliga já tinham adotado antes; no Brasil, o recurso chegou ao Brasileirão em 2019.
O impedimento e a tecnologia
O impedimento explica por que o debate segue quente. Impedimento é matéria factual, então o critério do erro claro e evidente não se aplica: um dedo do pé conta. Os sistemas semiautomáticos usam várias câmeras de rastreamento e detecção de membros para chegar à decisão e gerar a animação em três dimensões muito mais rápido do que o traçado manual de linhas. A tecnologia reduz a espera e dá consistência, mas não muda a regra, que continua favorecendo o atacante apenas quando a margem realmente permite.
Três mal-entendidos insistem em circular. Primeiro, o VAR não revisa tudo: pelas regras de 2026/27, lateral, escanteio e tiro livre já assinalados não se corrigem depois de cobrados, nem quando a jogada termina em gol. A ressalva é o escanteio claramente mal marcado, nas competições que adotaram a opção, e só enquanto ele não é batido. Na fase de posse que leva ao gol, a checagem alcança infração do ataque e bola que já tinha saído. Segundo, depois que o jogo é reiniciado, em regra não há mais correção, com raras exceções como identidade trocada e conduta violenta. Terceiro, no modelo padrão o técnico não pede revisão; a iniciativa é sempre da arbitragem. Boa parte da irritação com o sistema nasce de ignorar esses limites.
As competições foram abrindo o processo: replay nos telões, árbitro anunciando a decisão final pelo som do estádio, divulgação dos áudios da cabine. O princípio definido pelos legisladores segue o mesmo e merece ser repetido: mínima interferência, máximo benefício. O VAR nunca foi criado para entregar arbitragem perfeita nem para higienizar todo contato discutível. Ele existe para eliminar aquele punhado de erros que decidem jogos e que qualquer pessoa enxerga na primeira repetição.
Este guia dizia que o segundo amarelo não era revisável e que o VAR atuava só em quatro categorias, com o escanteio fora do alcance. Pelo protocolo de 2026/27, que entrou em vigor em 1º de julho de 2026, o vermelho que resulta de um segundo amarelo claramente errado é revisável, e as competições podem incluir o escanteio claramente mal marcado. O guia também abria para lateral e escanteio uma exceção dentro da fase de posse que leva ao gol; pelo mesmo protocolo, depois de cobrados, eles não se corrigem, nem nessa jogada.
Leia também
- IFAB: Video Assistant Referee (VAR) protocol (abre em nova aba)
- IFAB: The IFAB introduces further measures to improve match flow and player behaviour (abre em nova aba)
- IFAB: Historic step for greater fairness in football (abre em nova aba)
- FIFA: Refereeing and VAR at the 2018 FIFA World Cup: A new era for football (abre em nova aba)
- Premier League: History of VAR (abre em nova aba)
- DFL: Bundesliga ab Sommer offiziell mit Video-Assistent, 2. Bundesliga mit Offline-Testphase (abre em nova aba)
- DFL: Video-Assist-Center in Köln vorgestellt (abre em nova aba)
- FIGC: Tutti i numeri del progetto VAR. Fabbricini: "Risultati positivi frutto del lavoro di… (abre em nova aba)
- RFEF: 2018, el año en que el VAR llegó al fútbol español (abre em nova aba)
- Ligue 1: Tout ce qu'il faut savoir sur la VAR (abre em nova aba)
- Lance!: CBF confirma uso do VAR no Brasileirão de 2019 (abre em nova aba)
- FIFA: Maradona: VAR would have disallowed my goal against England (abre em nova aba)
- Al Jazeera: Blatter: 'Goal-line technology works' (abre em nova aba)
- Al Jazeera: Fifa to investigate Henry handball (abre em nova aba)
Perguntas frequentes
- Quais lances o VAR pode revisar?
- Pelo protocolo de 2026/27, cinco categorias: gol e a jogada que o originou, pênalti, cartão vermelho (inclusive após segundo amarelo claramente errado), identidade trocada em qualquer das equipes e, onde a competição aderir, escanteio claramente mal marcado. Lateral e tiro livre já cobrados não se revisam, nem na jogada do gol.
- O que é erro claro e evidente e por que não vale para impedimento?
- É a decisão de campo que as imagens mostram, com clareza, estar errada; na dúvida, vale o que o árbitro marcou, e por isso a maioria das checagens é silenciosa. Impedimento é matéria factual, então esse critério não se aplica: um dedo do pé conta, e os sistemas semiautomáticos chegam à mesma decisão com mais rapidez.
- Quando o VAR passou a fazer parte das Regras do Jogo?
- Depois de testes na metade dos anos 2010, a International Football Association Board incorporou o árbitro de vídeo às Regras do Jogo em 2018, e a Copa da Rússia foi a primeira a usá-lo. Serie A e Bundesliga já tinham adotado antes; no Brasil, o recurso chegou ao Brasileirão em 2019.






